Início

Roma, cidade aberta PDF Imprimir E-mail

Roma, cidade aberta (Roma, città aperta, Roberto Rossellini, Itália, 1945)

Se há uma concordância em apontar a tríade neo-realista Roberto Rossellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica, essa unanimidade não existe para determinar um filme como marco inicial do movimento. Foi, entretanto, com Roma, cidade aberta, apresentado em Cannes em 1946, que o neo-realismo italiano tomou proporções maiores. Outros cineastas prepararam, de fato, “o caminho”. Mas foi Roberto Rossellini que pôs nas telas uma Roma nua, miserável, sórdida. Os símbolos da Itália popular e da Itália corrompida pelo fascismo são mostrados pelas mãos de um cineasta que inicia uma nova fase, recém passado para o lado da Resistência. Em Roma, cidade aberta, Rossellini tenta compreender e fazer compreender a situação da Itália àquela época. A personagem interpretada por Anna Magnani, por exemplo, assume as feições trágicas da sociedade italiana que lutava por justiça e liberdade. A cena em que Pina é baleada pelos alemães, depois de correr atrás do ônibus em que seu companheiro estava preso, ficaria marcada na história do cinema.

Em uma entrevista aos Cahiers du cinéma, Rossellini causou polêmica quando questionou que se “as coisas estão aí, por que manipulá-las?”. Entretanto, essa apropriação do real por parte do diretor é muito mais do que apenas olhar em volta, e sim um como olhar em volta. Mais do que um testemunho de uma realidade imediata, Roma, cidade aberta não pretende deixar a realidade significar sozinha. O teórico André Bazin traçou o neo-realismo italiano por algumas características principais, como filmagens em externas ou em cenário natural, atuação de atores não-profissionais, personagens simples em papéis centrais e um cinema sem grandes meios, que escapa às regras da instituição cinematográfica. Filmado logo após a libertação da Itália, Roma, cidade aberta utiliza, em grande parte, atores amadores em locações reais. Todavia, esses recursos não impedem uma atuação “fabricada”. O fato de os atores não serem profissionais não quer dizer que não estejam representando uma ficção; os indivíduos são personagens que pertencem a um mundo ficcional. Quanto aos personagens simples, embora a caracterização tenha mudado, em oposição às intrigas clássicas de anteriormente, ainda há o bom e o mau. Para as falas em alemão dos oficiais, em Roma, cidade aberta, não há legendas. Vez que outra, quando falam a língua de Rossellini, os nazistas dizem ou que os italianos só sabem gritar, ou que os alemães são a raça superior. Apenas em um momento um dos oficiais parece entender a dimensão da situação em que vivia, quando diz, bêbado, que todos os nazistas serão consumidos pelo ódio.

Roberto Rossellini é um dos diretores mais discutidos em razão de suas escolhas políticas, de sua vida privada e do cristianismo que está em muitas de suas obras. Em 1943, após um período aliado ao fascismo, se juntou à Resistência. O Padre Don Pietro, uma das figuras centrais de Roma, cidade aberta, explicita que naquela situação, pouco importava a religião, a classe social ou a ideologia política: os italianos deveriam se unir contra a Ocupação. Don Pietro afirma, quando está sendo interrogado pelos nazistas, que é um padre católico, e acredita que quem combate pela justiça e a liberdade caminha nos passos do senhor, que são infinitos.

Em outro momento, Francesco, o operário, comenta com Pina, com quem deveria se casar no dia seguinte, que a guerra já durava dois anos, e eles pensavam que logo acabaria, e que só veriam as notícias das tragédias pelo cinejornal. Depois da ocupação, a Roma de Rossellini parece triste. O diretor consegue transmitir a descrença dos italianos cena a cena, como quando Pina e Francesco falam que querem apenas que seus filhos vejam um mundo melhor. Isso não acontece durante o filme, uma vez que Francesco é preso, Pina é baleada ainda grávida no dia do casamento, e o pequeno Marcello, filho de Pina, assiste ao fuzilamento do Padre Don Pietro. A imagem final, que mostra Marcello caminhando em direção a cidade, deixa uma esperança de que um dia ele possa, sim, ver um mundo melhor.

Filmar uma ficção inspirada em fatos reais foi o triunfo de Rossellini. Mais tarde, o cineasta retomaria o tema da guerra, com mais dois filmes: Paisá (1946) e Alemanha ano zero (Germania anno zero, 1947). A “trilogia da guerra” é mais um testemunho das condições da Europa do pós-guerra e sua reconstrução, do que uma crítica ao regime fascista. É, porém, um testemunho necessário, que acaba sendo uma prova da luta do povo italiano em favor da liberdade mundial.

Por: Taidje Gut



Ficha técnica

Roma, cidade aberta (Roma, città aperta)

Ficção, longa-metragem

Itália, 1945

35mm, PB, sonoro

Duração: 97 min


Direção: Roberto Rossellini

Roteiro: Roberto Rossellini, Federico Fellini, Sergio Amidei, Alberto Consiglio

Assistente de direção: Sergio Amidei

Fotografia: Ubaldo Arata

Montagem: Eraldo da Roma

Música: Renzo Rossellini

Elenco: Anna Magnani (Pina), Aldo Fabrizi (Don Pietro), Marcello Pagliero (Manfredi), Maria Michi (Marina), Francesco Grandjacquet (Francesco)


Roma, 1944. A cidade está sob ocupação nazista e é declarada “cidade aberta”. Este é o cenário da história de Giorgio Manfredi, um engenheiro comunista, um dos chefes do Comitê de Liberação Nacional, que assume diversos nomes ao longo do filme. Manfredi (ou Ferraris, ou Epíscopo) se refugia na casa do operário Francesco, que está às vésperas de se casar com Pina. Com a Gestapo aterrorizando as ruas, católicos, operários, comunistas, mulheres e crianças se unem para combater os fascistas e os alemães. Pina, mãe do pequeno Marcello, é baleada no dia do casamento, quando vê seu companheiro ser preso. Manfredi, porém, logo escapa dos nazistas, e junto ao padre Don Pietro arma um plano de fuga. A amante de Manfredi, a atriz e dançarina Marina, denuncia o grupo em troca de drogas e roupas. Manfredi morre sob tortura, enquanto Don Pietro é fuzilado. Com personagens e fatos imaginários, ainda que inspirados nos nove meses da ocupação nazista na Itália, Roma, cidade aberta de Roberto Rossellini coloca a “gente das ruas” na história central – operários, mulheres, crianças – e inaugura o neo-realismo italiano.


Adicionar como favorito (348) | Publique este artigo no seu site | Visto: 28393

Seja o primeiro a conmentar este artigo.
Comentários em RSS

Escrever comentário
  • Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
  • Ataques pessoais serão deletados.
  • Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.
Nome:
E-mail
Título:
Comentário:

Código:* Code

Powered by AkoComment Tweaked Special Edition v.1.4.6
AkoComment © Copyright 2004 by Arthur Konze - www.mamboportal.com
All right reserved

Última Atualização ( 07 de dezembro de 2007 )
< Anterior